Apresentação

Possui graduação em Licenciatura em Dança pela Faculdade Angel Vianna (2011). Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Dança, atuando principalmente nos seguintes temas: Dança, Educação Infantil, Sapateado e Tecnologia. De 2003 a 2012 atuou no grupo carioca Intrépida Trupe, participando de espetáculos, Turnês e temporadas. Foi contemplada com o Programa de Fomento a cultura do Rio de Janeiro para a montagem do espetáculo As Quadro texturas onde dirigiu e atuou e na Oficina de educação Afetos Sonoros ambos em 2015. Em 2017 foi contemplada com a Residência no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro onde iniciou a pesquisa do trabalho Sinergia.  Jurada e professora no Festival de Joinville de 2017 a 2019. É uma das fundadoras do Festival Sonoros que teve sua primeira edição em 2019. Atualmente é a primeira representante do projeto Tap Into Life no Brasil.

Sinergia

Fui censurada!

Realmente aconteceu e demorei a acreditar.

Estou no terceiro ano de residência no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro, lugar que tenho muito apreço, pois para a classe de coreógrafos e bailarinos é um espaço onde se respira, pesquisa, pensa e vive dança. Sigo em minha pesquisa junto a um grupo de bailarinos sapateadores buscando uma linguagem de intersecção entre a música e a dança.

No espetáculo intitulado “Sinergia”, trabalhamos com a sonoridade do Funk carioca. Uma música que surge potente nas periferias e favelas do Rio de Janeiro,  ritmo marginalizado e legítima e pura manifestação popular que atravessou fronteiras nacionais, e de onde muitos artistas potencializaram suas camadas de expressão artística, modelando, e trazendo diversos elementos de beats e discursos de empoderamento social.

Esse não é meu primeiro trabalho onde abordo essa sonoridade e nos últimos dez anos vivenciei e ouvi muita coisa, mas nada parecido com o ocorrido na Mostra Municipal de Dança, na qual fui requisitada junto ao meu grupo de dança “Afetos Sonoros” para abrir a Mostra como Companhia convidada.

Colaborar com a Secretaria de Educação é algo inerente ao que eu acredito, a educação é a única forma genuína de mudança de um país, uma educação democrática e ampla, que integre a todos, sem restrições ou julgamentos de valores. Uma educação que nos faça inclusos como brasileiros dentro dos mais diversos aspectos culturais e sociais. Educação pública é um direito de todos e que proporcione reais valores pedagógicos e forme pessoas que futuramente devolverão ao seu entorno e país a riqueza humana que é bela justamente porque é diversa.  A Mostra Municipal de Dança acontece há 34 anos e é um bem cultural para nossa cidade.

Deixo aqui o meu relato do acontecido:

Recebi o convite para a Mostra por telefone. Uma semana antes da data fui até a Secretaria de Educação para uma reunião com a curadoria que assistiu o vídeo do trabalho ainda em construção, e foi uma satisfação perceber o pleno interesse da parte curatorial e o fechamento do contrato do espetáculo logo em seguida.

Um dia antes da apresentação realizamos um ensaio técnico com toda a parte tecnológica completa e a produtora do evento assistiu ao espetáculo.

No dia da apresentação, fui recebida pela curadora com elogio pelo ensaio da véspera , no qual ela não pode comparecer.

Durante a primeira parte do espetáculo veio um aviso que a mesma gostaria de falar comigo ao término de nossa apresentação. A partir desse momento me surpreendi com um discurso totalmente diferente do que tinha sido dito pela manhã. O nosso trabalho foi acusado entre outras coisas de “agressivo”, “sexualizado”, “preconceituoso”, palavras que deformam o caráter e objetivo da pesquisa e trabalho da minha Companhia, estendendo aos bailarinos esse julgamento de valores errôneo. Infelizmente fui admoestada por meu trabalho, e sinto que essa falta de cuidado em palavras e ações se torna recorrente atualmente em outros setores públicos, sobretudo com a classe artística.

Relembro que esse espetáculo se chama “Sinergia.” União, cooperação, associação, consonância e entendimento são alguns dos seus sinônimos. Dentro da minha pesquisa o ritmo do funk carioca aliado ao sapateado norte-americano é um veículo para trazer esse entendimento ao público. De que esses ritmos oriundos de povos afro, que sobrepujaram a escravidão secular, contribuíram para o desenvolvimento das nações que mantinham o vil comércio de seres humanos e que no Brasil, após 1888 esses povos se viram tragados em zonas periféricas como uma nódoa incômoda da sociedade. E se levantaram e criaram meios e bens culturais de resistência. O funk é uma dessas vertentes de resistência e clamor pela não-invisiblidade. Ainda que em suas inúmeras ramificações ele seja desqualificado como música de preto e pobre, é inegável a sua mobilidade em várias esferas sociais da nossa sociedade.

Não é o funk que deveria ser proibido. É o cruel massacre de uma população que não tem acesso à transformação social de forma plena. O uso que se faz do funk, suas versões mais pesadas são um reflexo de uma esfera de abandono do poder público nas favelas e periferias. Pois essa gente só serve enquanto estiver cotidianamente servidora e submissa. Sem voz.

A arte transforma e é um dos mais potentes canais de comunicação. A censura é um ato vazio e prejudicial para todos nós.